sexta-feira, 3 de abril de 2015

De volta ao começo

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Gonzaguinha - De volta ao começo - 1979

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Hoje, sexta feira da paixão, dia em que Jesus Cristo sacrificou-se por nós na cruz para 
"redimir" nossos pecados.  Assim diz as linguas populares, o livro sagrado e os pretenciosos dominantes 
da verdade absoluta, inquisidores da nossa dúvidas, carrascos das nossas opiniões.
Curiosamente, acordo com minha esposa escutando Gonzaguinha e sentei-me à mesa para tomar
um café , como sempre faço nas manhas.  Entre as fumaças do cigarro e devaneios de minha mente
meus ouvidos focaram na letra deste grande compositor brasileiro e me veio uma conclusão:
Acho que estamos devolvendo a Jesus o seu sofrimento, o seu martírio, aos poucos como
a chuva que corroe o ferro na lentidão e na paciência do determinado objetivo de quebrar 
nossa força e nossa fé em dias melhores.

Esta música caiu como uma cartilha, como uma advinhação, uma revelação dos arcanos, um buzio
musicado, um sonho de João para nossos dias atuais. Foi estranho ouvir minha vidinha escrita
em severas porem verdadeiras palavras, que cairam como um verso bíblico ou um tapa de Nostra
damus no meu rosto inocente e sonhador.

Em meio a tantas revoltas, tantas falcatruas, tantas revelações sobre o país,tantos impostos
e taxas, tantas possibilidades de uma falsa felicidade, existe uma conscientização e um sentimento
de culpa injetado nas nossas veias pelos mesmos que estão a nos ferir, com um gume que rasga nossa 
carne e o culpado é o nosso corpo no caminho da faca.  Consciência ambiental, preconceito zero,
energia limpa,  preservação da natureza e dos animais e muitos outros clichês lindos, maravilhosos e hipócritas nos fazem assumir um crime que não é nosso. "O tempero da comida é a fome" diz o ditado popular. Culpam o povo por escolher mal os seus governantes, mas será que temos boas opções diante desse mar de lama?Não que impiedosamente percamos os freios e deliberemos o capitalismo sarcastico e nosso extinto de destruição, mas a grande mente que nos rege a frente do país amassa o pão e nos dá com água e ainda nos culpapor isso. "Preservemos a natureza" enquanto o desmatamento continua a nos matar no futuro? e outras e outras perguntas com respostas obvias,  você é culpado por tudo isso? 

O Cristo nos redimiu por pecados praticados até sua época, de la em diante estamos devendo  e muito...

Nos deleitemos com essas palavras, pra ver se ganharemos "um fuscão no juizo final e um diploma de bem comportado", afinal,
você merece! Cerveja? samba? e amanha seu zé? se acabarem o teu carnaval?

Nilson A. Silva


Dias De Santos E Silvas
Gonzaguinha


O dia subiu sobre a cidade 
Que acorda e se põe em movimento 
Um despertador bem barulhento 
Badala, bem dentro, em meu ouvido

Levanto, engulo o meu café 
Corro e tomo a condução 
Que, como sempre, vem cheia, 
Anda, para e me chateia

Está quente pra chuchu, 
Meu calo dói, 
A certeza já me rói, 
Levo bronca do patrão

Mas, sonhei 
E fiz a fé no avestruz 
Que vai me dar uma luz 
Levo uma nota pra mão

A tarde transcorre calma e quente 
Nas ruas, ao sol, fervilha gente 
Batalham, como eu, o leite e o pão 
Que o gato bebeu e o rato roeu

Aumenta tudo, aumenta o trem 
Aumenta o aluguel e a carne também 
É... mas, sei, vai melhorar 
Pior que tá não dá pra ficar

Ah, meu Deus, 
Se o avestruz der na cabeça 
Vou ganhar dinheiro à beça, 
Faço minha redenção

E vou lá dentro, 
No escritório do patrão 
Peço aumento, ele não dá, 
Mostro a grana e a demissão

A noite desceu sobre a cidade 
Nas filas, calor suor cansaço 
Meu corpo está que é só bagaço 
E se está de pé é de teimoso

Eu, desejando minha cama 
Furam a fila e alguém reclama: 
Louvaram a mãe do rapaz 
Que diz que faz e desfaz

E só falta uma briguinha 
E eu ir para o xadrez 
Pobre não tem mesmo vez 
Não dá sorte ou dá azar

E o danado do avestruz 
Também não deu 
Minha mulher vai reclamar 
O dinheiro que era seu

E o danado do avestruz 
Também não deu 
Minha mulher vai reclamar 
O dinheiro que era seu

Que o gato comeu 
O rato roeu 
Alguém se lambeu





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