Gonzaguinha - De volta ao começo - 1979
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Hoje, sexta feira da paixão, dia em que Jesus Cristo sacrificou-se por nós na cruz para
"redimir" nossos pecados. Assim diz as linguas populares, o livro sagrado e os pretenciosos dominantes
da verdade absoluta, inquisidores da nossa dúvidas, carrascos das nossas opiniões.
Curiosamente, acordo com minha esposa escutando Gonzaguinha e sentei-me à mesa para tomar
um café , como sempre faço nas manhas. Entre as fumaças do cigarro e devaneios de minha mente
meus ouvidos focaram na letra deste grande compositor brasileiro e me veio uma conclusão:
Acho que estamos devolvendo a Jesus o seu sofrimento, o seu martírio, aos poucos como
a chuva que corroe o ferro na lentidão e na paciência do determinado objetivo de quebrar
nossa força e nossa fé em dias melhores.
Esta música caiu como uma cartilha, como uma advinhação, uma revelação dos arcanos, um buzio
musicado, um sonho de João para nossos dias atuais. Foi estranho ouvir minha vidinha escrita
em severas porem verdadeiras palavras, que cairam como um verso bíblico ou um tapa de Nostra
damus no meu rosto inocente e sonhador.
Em meio a tantas revoltas, tantas falcatruas, tantas revelações sobre o país,tantos impostos
e taxas, tantas possibilidades de uma falsa felicidade, existe uma conscientização e um sentimento
de culpa injetado nas nossas veias pelos mesmos que estão a nos ferir, com um gume que rasga nossa
carne e o culpado é o nosso corpo no caminho da faca. Consciência ambiental, preconceito zero,
energia limpa, preservação da natureza e dos animais e muitos outros clichês lindos, maravilhosos e hipócritas nos fazem assumir um crime que não é nosso. "O tempero da comida é a fome" diz o ditado popular. Culpam o povo por escolher mal os seus governantes, mas será que temos boas opções diante desse mar de lama?Não que impiedosamente percamos os freios e deliberemos o capitalismo sarcastico e nosso extinto de destruição, mas a grande mente que nos rege a frente do país amassa o pão e nos dá com água e ainda nos culpapor isso. "Preservemos a natureza" enquanto o desmatamento continua a nos matar no futuro? e outras e outras perguntas com respostas obvias, você é culpado por tudo isso?
O Cristo nos redimiu por pecados praticados até sua época, de la em diante estamos devendo e muito...
Nos deleitemos com essas palavras, pra ver se ganharemos "um fuscão no juizo final e um diploma de bem comportado", afinal,
você merece! Cerveja? samba? e amanha seu zé? se acabarem o teu carnaval?
Nilson A. Silva
Dias De Santos E Silvas
Gonzaguinha
O dia subiu sobre a cidade
Que acorda e se põe em movimento
Um despertador bem barulhento
Badala, bem dentro, em meu ouvido
Levanto, engulo o meu café
Corro e tomo a condução
Que, como sempre, vem cheia,
Anda, para e me chateia
Está quente pra chuchu,
Meu calo dói,
A certeza já me rói,
Levo bronca do patrão
Mas, sonhei
E fiz a fé no avestruz
Que vai me dar uma luz
Levo uma nota pra mão
A tarde transcorre calma e quente
Nas ruas, ao sol, fervilha gente
Batalham, como eu, o leite e o pão
Que o gato bebeu e o rato roeu
Aumenta tudo, aumenta o trem
Aumenta o aluguel e a carne também
É... mas, sei, vai melhorar
Pior que tá não dá pra ficar
Ah, meu Deus,
Se o avestruz der na cabeça
Vou ganhar dinheiro à beça,
Faço minha redenção
E vou lá dentro,
No escritório do patrão
Peço aumento, ele não dá,
Mostro a grana e a demissão
A noite desceu sobre a cidade
Nas filas, calor suor cansaço
Meu corpo está que é só bagaço
E se está de pé é de teimoso
Eu, desejando minha cama
Furam a fila e alguém reclama:
Louvaram a mãe do rapaz
Que diz que faz e desfaz
E só falta uma briguinha
E eu ir para o xadrez
Pobre não tem mesmo vez
Não dá sorte ou dá azar
E o danado do avestruz
Também não deu
Minha mulher vai reclamar
O dinheiro que era seu
E o danado do avestruz
Também não deu
Minha mulher vai reclamar
O dinheiro que era seu
Que o gato comeu
O rato roeu
Alguém se lambeu

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